A discussão que norteia a luta pelos direitos humanos é a de em qual mundo queremos viver. Queremos um mundo com diversidade, alegria, animais, velhos e crianças? Esse mundo vai precisar de engajamento político, valores, pesquisa, prática... Direitos humanos não são algo dado, natural. Por isso é necessária a luta por eles. Esses direitos vão sendo ampliados a medida que conquistas vão sendo feitas no plano do direito (lei) e nas práticas.
A partir de 1689 com a Bill of Rights e as sucessivas Declaração da Virgínia (1776) e Declaração da Revolução Francesa (1789) começamos a entender os homens como livres e iguais. Ou seja, a igualdade é, no ponto de vista histórico, muito recente. A colonização do Brasil, por exemplo, se deu apoiada na desigualdade das pessoas, no trabalho escravo, indígena e africano. É verdade que a escravidão ocorreu em diversos países, em diversas épocas, mas na América ela veio como um empreendimento. Os africanos escravizados eram a mão de obra do Brasil colônia e também sustentavam o mercado do tráfico negreiro, movimentando muito capital. Sendo assim, tornava-se especialmente desinteressante falar em igualdade dos homens. Até a abolição da escravidão, em 1888, a desigualdade era legítima. Atualmente, apesar de sabermos que ainda há venda e escravização de pessoas, a desigualdade não é legitima. Há uma lei dizendo que isso é proibido. No entanto, não é suficiente afirmar na lei, é preciso também que essa afirmação seja feita na prática, na vida. É necessário problematizar, discutir, pensar os direitos humanos. Uma prática que vai exigir política, políticas públicas de educação, saúde, moradia, entre outras.
Na Monarquia, as pessoas não tinham direito a vida, elas dependiam do poder soberano, o poder de vida e morte sobre o outro (Foucault), do rei ou da igreja. O pressuposto era a desigualdade. As pessoas não tinham direito de vida, direito de ser alimentado etc. Nada disso era obrigação do Estado. Tais ações ficavam por conta do sistema caritativo, no esquema “uma esmola pelo amor de Deus”. E é contra isso que surgem os direitos humanos, que através do princípio da igualdade humana, igualdade esta em termos de dignidade humana, vem garantir o direito de vida de todos os seres humanos.
Pensando como profissional, como psicóloga, e não só como cidadã, é importante lembrar sempre de que os profissionais têm um código de ética. As profissões estão regulamentadas no Ministério da Educação e uma série de responsabilidades é colocada nas mãos desses profissionais. Há uma relação contratual - o capitalismo se rege na confiança dos contratos estabelecidos, dos valores éticos ao exercer a profissão. Porém, existem relações que não são contratuais e sim de tutela.
Contrato e tutela diferem no sentido de que o contrato é feito entre pessoas “livres” (uma pessoa que busca terapia e psicólogo, por exemplo) e a tutela trata de indivíduos que não podem se responsabilizar por todos os seus atos (crianças, loucos, interditados pela justiça), sendo as transgressões destes passíveis de tratamento e não punição. Por exemplo, o criminoso tem discernimento, pode realizar um contrato (sendo “normal” ele é sujeito as leis penais), já o louco que cometeu o mesmo crime por não ser “normal” está tutelado e será então submetido a uma medida de segurança, um tratamento. Este será levado então para um Manicômio Judiciário e só poderá sair quando curado. Acontece que muitas vezes ele não recebe alta nunca e passa o resto da vida na instituição. Não seria isso como uma prisão perpétua? É preciso pensar sobre isso.
Hoje há grande dificuldade de aceitarmos a dignidade de alguns homens ou classes, como, por exemplo, a dignidade de alguém que cometeu um crime. Baseados do pensamento de “direitos humanos para humanos direitos”, justificamos a violação dos direitos dos que “não seguem as regras”. Mas que regras são essas? A quem elas atendem? Quando nem chegamos a questionar esse tipo de coisa, é difícil entendermos porque os direitos humanos são para todos. Não conseguimos entender por quê mesmo os que estão em delito têm direitos e são humanos. Acontece que a justiça atual não é, ou pelo menos não deveria ser, calcada na vingança. A justiça hoje é responsabilização. O homem que comete um delito deve ser responsabilizado com perdas do direito de ir e vir, de capital, por exemplo. A pessoa perde alguns dos seus direitos por ter cometido um delito, não todos. É preciso que esse olhar seja atualizado.
Seguindo essa mesma lógica notamos a dificuldade em respeitar a autodeterminação dos povos. A cada dia aumenta a intolerância entre culturas, o etnocentrismo. Permanecemos presos a um pensamento maniqueísta que encara as diferenças como definidoras do que é bom ou mau. Não percebemos que são, na verdade, singularidades, outras perspectivas, outro olhar sobre o mundo. Que passa a ser ilícito quando quem está no poder assim o entende.
A própria Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 1948, já chega de forma questionável. Ora, “universal” como? Será mesmo que podemos falar de um homem universal, colocando “o homem” como essência? Será que há mesmo essa tal “homenzidade” do homem?
É necessário expandir o pensamento e perceber que os direitos tendem também a ser dos povos, da terra, dos animais, e não só dos humanos. Há uma interdependência. Além disso, não se vive só de liberdade ou só de comida ou só de alegria, é necessário tudo isso e também pertencer a uma coletividade, trabalhar, ter políticas públicas, enfim, questões práticas para o direito ser exercido. É necessário entender de uma vez por todas a indivisibilidade dos direitos.
A sociedade civil é cheia de conflitos de interesses e está completamente desorganizada. Os movimentos políticos estão fragmentados. Essa fragmentação nos tira qualquer possibilidade de mudança, de criação de algo novo, de produção. Pequenos grupos se organizam, a massa não. A sociedade está indiferente e apática e isso faz com que se sigam os jogos de poder. Hoje, em nome da soberania do mercado, as individualidades são massacradas. E como nos posicionamos frente a isso? A sociedade deve exercer seus direitos e sua democracia. O exercício da democracia deve ser fomentado. Acontece que ninguém encara a luta do outro como sua e o que nos resta é ficar procurando um culpado.
Sonho com o dia em que as lutas se unirão e conseqüentemente se fortalecerão. Somente nesse dia seremos capazes de produzir um novo caminho, apontar uma nova direção. Como no dia em que o movimento das mulheres não for mais contra os dos homens ou o movimento das crianças não for mais contra os pais.
um beijo afetado.