Quando viajo minha busca sempre se direciona mais as pessoas e depois, através delas, as paisagens, as histórias do lugar. Não que no meu dia-a-dia não faça isso, acho que a minha vida sempre esteve muito ligada na busca dos outros olhares pro mundo, sempre fui muito curiosa por gente no mundo – e talvez por isso tenha resolvido me meter com a psicologia social - mas acho que viajando eu me permito isso mais aberta e intensamente. Conheço senhoras costurando na praça ou em alguma fila de brindes, converso com prostitutas, bêbados, loucos, crianças, mendigos... E tantas pessoas que em meu cotidiano quase sempre são apontadas e tratadas como as que não têm nada a dizer. Acontece que, já há algum tempo, tenho percebido que muitas vezes aprendo tanto ou mais nessas conversas do que nas grandes palestras dos doutores colecionadores de títulos de pós-isso, pós-aquilo.
Quando chego de volta de uma viagem é sempre muito impactante. Como quando me deparo com a tal academia, por exemplo. Seja numa sala de aula, numa palestra, seminário (internacional, universal, intergaláctico) percebo com mais clareza que os "qualificados", merecedores de horas de discurso ininterrupto, poucas vezes tem algo sincero e afetado a dizer. Algo que se transforme em prática coerente. É tudo meio plástico! Na verdade, são discursos até bem bonitos, vocabulários rebuscados, referências bibliográficas em mais de 5 idiomas, super bacana! Mas daí eu pergunto: e quando a coisa toma corpo, espaço e tempo, o que temos? E é aí que a coisa se perde. O que temos é um vazio, um hiato e muitas coisas mais interessantes pra fazer ou pensar ou escrever. Discursos brilhantes e tão incoerentes com a prática. Sim, incoerentes. Falta tanta coerência entre os discursos e as práticas que às vezes fico enjoada.
Quando será que vamos nos convencer de que é preciso escutar a voz da rua, do povo, da terra para que as nossas teorias realmente sirvam de algo? Quantas provas do fracasso desse distanciamento entre um campo e outro ainda serão necessárias para que aceitemos que não há sentido nessa (des)qualificação infundada do outro? Do que trabalha ali, mora ali, respira ali. Não é petulância demais nos colocarmos como especialistas da vida do outro e desqualificar seu discurso, seus sentimentos, seu cheiro, sua textura?
Não acredito poder-se mudar o mundo sem tocá-lo, ouvi-lo, vivê-lo. Sem sentir o gosto dele, o cheiro dele. E é necessário que se cheire o cangote do mundo, acaricie seus cabelos e escute atentamente seus sussurros ao pé do ouvido, com direito a mordiscadas na orelha.
Até quando a banda vai passar e a moça feia ficará na janela pensando que a banda toca pra ela? Sai da janela e vai pra rua, moça!